Comer virou uma tarefa difícil desde que começou o tratamento? Você não está sozinho. A alteração de paladar durante a quimioterapia, chamada tecnicamente de disgeusia, é um dos efeitos colaterais mais comuns e também um dos que mais impactam o dia a dia.
Por que a quimioterapia altera o paladar?
A disgeusia na quimioterapia tem mais de uma causa. Os quimioterápicos agem sobre células que se dividem rapidamente, e as células dos receptores gustativos da língua estão nesse grupo. Além disso, o tratamento altera a composição e a quantidade de saliva, fundamental na percepção dos sabores. Alguns medicamentos, como a cisplatina e o carboplatina, chegam diretamente à boca via glândulas salivares, reforçando a sensação de gosto metálico.
Estudos indicam que até 70% dos pacientes em quimioterapia relatam alguma forma de alteração do paladar ao longo do tratamento.
Quais são os tipos mais comuns de alteração
- Gosto metálico: presente mesmo quando não se está comendo, ou acentuado com carnes e água.
- Tudo com sabor amargo: alimentos que antes eram neutros ou doces passam a ter amargor desagradável.
- Comida sem gosto: ausência quase total de sabor, o que tira o prazer e o estímulo para comer.
- Hipersensibilidade a certos sabores: o doce fica enjoativo, o salgado fica excessivo.
Estratégias práticas para conseguir comer melhor
Adapte o preparo das carnes
Marinadas com ervas frescas, suco de limão, vinagre e especiarias como cúrcuma e gengibre ajudam a mascarar o sabor desagradável. Deixar a carne marinando por pelo menos duas horas antes do preparo faz diferença perceptível.
Sirva os alimentos frios ou em temperatura ambiente
Alimentos quentes liberam mais aroma e sabor, o que pode intensificar percepções desagradáveis. Frango desfiado frio com azeite, ovos cozidos, iogurte e frutas são opções que tendem a ser melhor toleradas.
Troque os talheres de metal
Se o gosto metálico está intenso, talheres de plástico, bambu ou madeira são alternativas que muitos pacientes relatam ajudar.
Experimente proteínas vegetais
Ovos, feijão, lentilha, grão-de-bico, tofu e queijos são fontes proteicas que costumam ser mais bem aceitas durante os períodos de maior alteração do paladar.
Use temperos e ervas com mais generosidade
Quando o paladar está embotado, aumentar ervas aromáticas, alho, cebola, limão e especiarias no preparo ajuda a dar identidade ao prato e estimular o apetite.
Faça higiene bucal antes das refeições
Escovar os dentes ou enxaguar a boca com água e bicarbonato de sódio antes de comer ajuda a limpar o paladar e reduzir o sabor residual.
O papel do zinco nas alterações de paladar
O zinco é um mineral diretamente envolvido no funcionamento dos receptores gustativos. A deficiência de zinco está associada à disgeusia. No entanto, a suplementação não deve ser feita por conta própria durante o tratamento oncológico, a avaliação e decisão precisam ser conduzidas pela equipe de saúde.
Quando o paladar volta ao normal?
Para a maioria dos pacientes, as alterações de paladar são temporárias. Após o término do tratamento, os receptores gustativos se regeneram e a percepção dos sabores costuma se normalizar em semanas ou alguns meses.
Muitos pacientes encontram, ao longo do tempo, alimentos e preparos que ainda funcionam bem para eles, mesmo que a lista seja diferente do habitual. O trabalho nutricional nessa fase é justamente esse: identificar o que é possível agora, sem transformar cada refeição num esforço.
Cada paciente tem um perfil diferente de alteração do paladar e uma lista diferente de alimentos que ainda funcionam: o trabalho nutricional começa justamente aí. Atendo presencialmente em Brasília (Asa Norte) e online para todo o Brasil.
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Fontes
- Spotten LE, et al. Subjective and objective taste and smell changes in cancer. Annals of Oncology. 2017;28(5):969-984.
- Ravasco P. Nutrition in cancer patients. Journal of Clinical Medicine. 2019;8(8):1211.
- Arends J, et al. ESPEN expert group recommendations for action against cancer-related malnutrition. Clinical Nutrition. 2022;41(4):742-764.
- Rock CL, et al. American Cancer Society nutrition and physical activity guideline for cancer survivors. CA: A Cancer Journal for Clinicians. 2022;72(3):230-262.
Fernnanda Sá
Nutricionista clínica e oncológica · CRN-1 19981
Graduação pela UnB · Especialização pelo Hospital Israelita Albert Einstein · Residência multiprofissional em oncologia pela Secretaria de Saúde do DF · Título de especialista pela SBNO
Atendimento presencial em Brasília e online para todo o Brasil. Este conteúdo é informativo e não substitui a consulta individual.