Durante o tratamento oncológico, o sistema imunológico enfrenta pressões de todos os lados. O próprio tumor altera a resposta imune, e o tratamento, seja qual for a modalidade, interfere de formas distintas na capacidade do organismo de se defender. Em meio a tudo isso, a alimentação é uma das ferramentas que o paciente pode usar ativamente, com orientação profissional, para apoiar o corpo nesse processo.
Este artigo explica o que é imunonutrição, como ela funciona no contexto do câncer e o que você pode fazer na prática.
O que a alimentação tem a ver com a imunidade no câncer?
O sistema imunológico depende de uma base nutricional adequada para funcionar. Proteínas formam as células de defesa. Micronutrientes como zinco, selênio e vitamina D regulam a ativação e a resposta dessas células. A microbiota intestinal, alimentada pelas fibras da dieta, tem papel central na modulação imune. Quando o estado nutricional está comprometido, a capacidade do organismo de se defender também fica.
No contexto do câncer, isso tem implicações diretas. A desnutrição compromete não só a tolerância ao tratamento, mas também a resposta imunológica necessária para que ele funcione. Estudos com pacientes em quimioterapia e imunoterapia mostram que o estado nutricional influencia tanto a eficácia dos protocolos quanto a frequência e a gravidade dos efeitos colaterais.
Por que a imunidade cai durante o tratamento oncológico?
A queda da imunidade durante o tratamento não é uniforme nem inevitável, mas é muito comum. Entender por que isso acontece ajuda a agir de forma direcionada:
Durante a quimioterapia
Os quimioterápicos agem sobre células que se dividem rapidamente, e as células do sistema imunológico se enquadram nessa categoria. O resultado é a chamada neutropenia (queda dos neutrófilos, células de primeira linha de defesa contra infecções), que pode exigir internação quando severa. A alimentação adequada, com proteína suficiente e micronutrientes essenciais, apoia a regeneração dessas células entre os ciclos.
Durante a imunoterapia
A imunoterapia funciona de forma diferente: em vez de destruir células, ela “desbloqueia” o sistema imunológico para que ele mesmo combata o tumor. O desafio nutricional é outro: a resposta imune intensificada pode gerar efeitos adversos inflamatórios, como colite, hepatite e pneumonite imuno-mediada. Nesse contexto, a nutrição atua para controlar a inflamação sistêmica e garantir que o paciente não chegue debilitado ao ciclo seguinte.
Durante a terapia-alvo
Os medicamentos de terapia-alvo agem em vias moleculares específicas. Muitos deles têm efeitos colaterais gastrointestinais, como diarreia, mucosite e náusea, que comprometem a absorção de nutrientes e, consequentemente, a imunidade. Alguns interagem com alimentos, como a toranja/grapefruit, que pode aumentar a concentração de certos medicamentos no sangue de forma perigosa. A nutricionista oncológica precisa conhecer o protocolo específico do paciente para orientar com segurança.
Os micronutrientes-chave para a imunidade no câncer
Quatro nutrientes concentram a maior parte das evidências sobre função imunológica em pacientes oncológicos:
Zinco
O zinco é essencial para a maturação e ativação dos linfócitos T, células centrais da resposta imunológica adaptativa. Deficiência de zinco é comum em pacientes oncológicos, especialmente naqueles com baixa ingestão alimentar, diarreia crônica ou uso prolongado de inibidores de bomba de prótons. Fontes: carne vermelha magra, frutos do mar, sementes de abóbora, leguminosas. A suplementação pode ser indicada, mas precisa de avaliação: doses excessivas de zinco prejudicam a absorção de cobre e comprometem outros aspectos da imunidade.
Selênio
O selênio participa da síntese de selenoproteínas com ação antioxidante e anti-inflamatória. Estudos observacionais associam níveis adequados de selênio a melhor tolerância à quimioterapia e radioterapia. No Brasil, a castanha-do-pará é a fonte mais eficiente: uma a duas unidades por dia geralmente são suficientes para atingir a necessidade diária. A suplementação de selênio acima das necessidades não é recomendada sem indicação clínica específica.
Vitamina D
A vitamina D não é apenas o “nutriente dos ossos”. Ela tem receptores em praticamente todas as células do sistema imunológico e modula tanto a resposta imune inata quanto a adaptativa. Deficiência de vitamina D é encontrada com frequência em pacientes oncológicos acompanhados em Brasília. A reposição, quando indicada, é feita com base em exame de sangue (25-OH vitamina D), com doses ajustadas individualmente.
Ômega-3
Os ácidos graxos ômega-3 (EPA e DHA, encontrados principalmente em peixes de água fria como salmão, sardinha e atum) têm efeito anti-inflamatório bem estabelecido. Em oncologia, eles são especialmente estudados no contexto da caquexia (síndrome de perda de peso e músculo associada ao câncer) e da modulação da resposta inflamatória. A suplementação com ômega-3 pode ser indicada em doses terapêuticas, mas requer avaliação, especialmente em pacientes em uso de anticoagulantes ou antes de cirurgias.
Padrão alimentar anti-inflamatório: o que priorizar
Mais do que focar em nutrientes isolados, a evidência atual aponta para o padrão alimentar geral como o fator mais determinante. Um padrão anti-inflamatório para o paciente em tratamento inclui:
- Proteína suficiente em todas as refeições: ovo, frango sem pele, peixe, tofu, leguminosas, essencial para regenerar células de defesa;
- Variedade de vegetais coloridos: quanto mais cores no prato, maior a diversidade de fitoquímicos com ação imunomoduladora;
- Gorduras de qualidade: azeite de oliva extravirgem, abacate, oleaginosas; substituir gorduras saturadas por insaturadas tem efeito anti-inflamatório mensurável;
- Fibras: alimentam a microbiota intestinal, que tem papel central na modulação imunológica. Estudos recentes mostram que a saúde intestinal influencia a resposta à imunoterapia;
- Redução de ultraprocessados e açúcar: pró-inflamatórios, comprometem a função imune e favorecem o ambiente metabólico que beneficia células tumorais.
Interações alimentares importantes na imunoterapia e terapia-alvo
Ao contrário da quimioterapia convencional, onde as restrições alimentares costumam ser mais relacionadas a sintomas (náusea, mucosite), na imunoterapia e na terapia-alvo existem interações farmacológicas com alimentos que precisam de atenção:
- Toranja (grapefruit) e sumo de pomelo: inibem a enzima CYP3A4 do fígado, aumentando a concentração de vários medicamentos de terapia-alvo (como imatinibe, erlotinibe, crizotinibe) a níveis potencialmente tóxicos. Devem ser evitados durante o tratamento com esses medicamentos;
- Suplementos antioxidantes em altas doses: a relação com a eficácia da imunoterapia é complexa. Alguns estudos sugerem que antioxidantes exógenos em doses suprafisiológicas podem interferir com os mecanismos de morte celular tumoral mediados pelo sistema imunológico. Nunca use suplementos por conta própria durante a imunoterapia;
- Chás e fitoterápicos: erva-de-São-João (hipérico), chá verde em extrato concentrado, kava e outros podem interagir com medicamentos oncológicos. Informe sempre sua equipe médica e nutricional sobre tudo que está consumindo.
Quando a suplementação é indicada?
A suplementação em oncologia nunca deve ser iniciada por conta própria, mesmo com suplementos “naturais” ou vendidos livremente. A indicação depende de:
- Avaliação laboratorial ou cálculo do consumo habitual (deficiências identificadas por exame ou pela análise do que o paciente realmente come);
- Tipo de tumor e protocolo de tratamento em curso;
- Estado nutricional e ingestão alimentar atual;
- Interações com medicamentos em uso.
O que funciona e é seguro para um paciente pode ser inadequado ou até prejudicial para outro. A nutricionista oncológica avalia esses fatores e, quando necessário, trabalha em conjunto com o oncologista para definir o que é mais seguro.
Acompanhamento nutricional especializado em Brasília e online
O suporte nutricional durante o tratamento oncológico é um cuidado especializado, baseado em evidências e ajustado ao seu protocolo. Se você está em quimioterapia, imunoterapia, terapia-alvo ou qualquer outra modalidade de tratamento oncológico, contar com uma nutricionista oncológica faz diferença real na tolerância ao tratamento e na qualidade de vida.
A Fernnanda Sá é especialista em Nutrição Oncológica pela SBNO, com Residência Multiprofissional em Oncologia pela UnB e pós-graduação no Hospital Albert Einstein. Atende presencialmente em Brasília (Asa Norte, SGAN 915) e online para todo o Brasil, com acompanhamento individualizado, contínuo e integrado à sua equipe médica.
Tem dúvidas sobre alimentação durante o seu tratamento? Entre em contato pelo WhatsApp e veja como o acompanhamento nutricional pode ajudar:
👉 Agendar consulta pelo WhatsApp
Fernnanda Sá
Nutricionista clínica e oncológica · CRN-1 19981
Graduação pela UnB · Especialização pelo Hospital Israelita Albert Einstein · Residência multiprofissional em oncologia pela Secretaria de Saúde do DF · Título de especialista pela SBNO
Atendimento presencial em Brasília e online para todo o Brasil. Este conteúdo é informativo e não substitui a consulta individual.