Se você está passando por quimioterapia, é bem possível que alguém já tenha te falado para “comer bastante proteína”. Mas quanto é bastante? E o que fazer quando o apetite some, a náusea aparece e até o cheiro de frango já incomoda?
Essas são perguntas muito comuns no consultório, tanto aqui em Brasília quanto nos atendimentos online. Vamos responder a cada uma delas com clareza.
Por que a quimioterapia aumenta a necessidade de proteína
A quimioterapia combate as células tumorais, mas também gera um estado inflamatório no organismo. Esse processo acelera o que chamamos de catabolismo muscular: o corpo passa a “consumir” proteína do próprio músculo para obter energia e sustentar as funções vitais.
O resultado disso, quando a dieta não compensa essa perda, é a redução de massa muscular. E isso importa muito: músculos não são só questão estética. Eles sustentam a mobilidade, protegem as articulações, participam da resposta imune e ajudam o organismo a tolerar melhor o tratamento.
Por isso, a recomendação de proteína em oncologia é mais alta do que para a população geral.
Quanto de proteína é recomendado durante o tratamento
A ESPEN (Sociedade Europeia de Nutrição Clínica e Metabolismo), principal referência internacional em nutrição oncológica, recomenda entre 1,2 e 1,5 gramas de proteína por quilo de peso corporal por dia para pacientes em tratamento oncológico. Em situações de perda muscular importante, essa quantidade pode chegar a 2 gramas por quilo.
Para entender na prática: uma pessoa de 65 kg precisaria de algo entre 78 e 98 gramas de proteína por dia, o que é significativamente mais do que os cerca de 50 gramas recomendados para adultos saudáveis sem doença.
Atingir esse valor com apetite reduzido exige planejamento. Mas é possível.
Fontes proteicas de fácil digestão para quem tem apetite reduzido
Nem toda fonte de proteína funciona bem durante a quimioterapia. O ideal é priorizar alimentos de fácil mastigação, digestão simples e que não tenham cheiros muito intensos, já que a sensibilidade olfativa costuma aumentar durante o tratamento.
Algumas opções que costumam ser bem toleradas:
- Frango desfiado: cozido com pouco tempero, pode ser incorporado em sopas, purês e vitaminas salgadas. Suave e de fácil mastigação.
- Ovos: mexidos, cozidos ou em formato de omelete leve, são versáteis e ricos em proteína de alto valor biológico.
- Iogurte grego: além de proteína, oferece probióticos que podem ajudar o intestino durante o tratamento. Pode ser consumido frio, o que ajuda quando há sensibilidade à temperatura.
- Peixe: especialmente os de sabor mais suave, como tilápia e merluza cozidos. Proteína de qualidade com gordura benéfica.
- Queijo cottage: suave, úmido e fácil de combinar com frutas ou torradas macias.
- Leguminosas: feijão, lentilha e grão-de-bico, especialmente quando bem cozidos ou em forma de pastas, como homus. Boas fontes para quem prefere evitar carne.
A estratégia mais simples: proteína em todas as refeições
Quando o volume de cada refeição cai por conta do apetite reduzido, a distribuição ao longo do dia se torna ainda mais importante. Em vez de tentar concentrar a proteína em almoço e jantar, o objetivo é garantir uma fonte proteica em cada pequena refeição do dia, incluindo os lanches.
Um café da manhã com ovo e iogurte, um lanche com queijo cottage, almoço com frango desfiado na sopa e um jantar leve com peixe já contribuem bastante para atingir a meta diária sem exigir grandes volumes de comida.
Quando a suplementação com proteína em pó pode ajudar
Há situações em que, mesmo com boa variedade alimentar, não se consegue atingir a quantidade recomendada de proteína. É aí que os suplementos proteicos podem entrar como aliados, sempre com orientação profissional.
O whey protein (proteína do soro do leite) é o mais estudado nesse contexto. Tem digestão rápida, boa tolerância e pode ser adicionado a vitaminas, iogurtes ou mingaus. Para quem tem intolerância à lactose ou prefere evitar proteínas animais, as proteínas vegetais em pó (ervilha, arroz, soja) são alternativas que também têm evidência de uso em oncologia.
A suplementação não substitui a alimentação. Ela complementa quando há limitação real de ingestão oral.
Dificuldades comuns: como adaptar quando náusea, paladar alterado e falta de apetite aparecem
Esses são os três maiores obstáculos para manter a ingestão de proteína durante a quimioterapia:
Náusea
Priorize proteínas frias ou em temperatura ambiente, que geram menos odor. Iogurte gelado, queijo e ovos cozidos frios costumam ser mais fáceis de tolerar. Pequenas porções ao longo do dia pesam menos no estômago do que refeições volumosas.
Paladar alterado
A quimioterapia pode deixar um gosto metálico na boca, tornando carnes vermelhas difíceis de consumir. Nesses casos, ovos, laticínios e leguminosas costumam ser melhor aceitos. Talheres de plástico ou bambu podem reduzir a sensação metálica em algumas pessoas.
Falta de apetite
Quando comer parece um esforço, aposte nas fontes mais calóricas e proteicas em menor volume. Um copo de vitamina com leite, iogurte, banana e whey protein pode oferecer boa quantidade de proteína com volume reduzido e textura agradável.
Em situações de perda de peso acentuada ou dificuldade persistente para comer, a avaliação com nutricionista oncológico é fundamental para ajustar o plano e, se necessário, indicar suporte nutricional especializado.
A proteína é um dos nutrientes mais importantes para atravessar o tratamento com mais força e qualidade de vida. Atendo presencialmente em Brasília (Asa Norte) e online para todo o Brasil.
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Fontes
- Arends J, et al. ESPEN expert group recommendations for action against cancer-related malnutrition. Clinical Nutrition. 2022;41(4):742-764.
- Prado CM, et al. Nutrition interventions to treat low muscle mass in cancer. Journal of Cachexia, Sarcopenia and Muscle. 2022;13(3):1249-1268.
- Rock CL, et al. American Cancer Society nutrition and physical activity guideline for cancer survivors. CA: A Cancer Journal for Clinicians. 2022;72(3):230-262.
- Roeland EJ, et al. Management of cancer cachexia: ASCO guideline. Journal of Clinical Oncology. 2020;38(21):2438-2453.
Fernnanda Sá
Nutricionista clínica e oncológica · CRN-1 19981
Graduação pela UnB · Especialização pelo Hospital Israelita Albert Einstein · Residência multiprofissional em oncologia pela Secretaria de Saúde do DF · Título de especialista pela SBNO
Atendimento presencial em Brasília e online para todo o Brasil. Este conteúdo é informativo e não substitui a consulta individual.