A radioterapia é um dos pilares do tratamento oncológico e, dependendo da área irradiada, pode trazer efeitos colaterais que dificultam bastante a alimentação. Adaptar a dieta conforme a localização do tumor é parte indispensável do cuidado.
Por que os efeitos colaterais variam tanto de pessoa para pessoa?
O tipo e a intensidade dos efeitos na alimentação durante a radioterapia dependem principalmente de qual região do corpo está sendo irradiada, da dose total utilizada e das condições nutricionais do paciente antes do tratamento.
Radioterapia de cabeça e pescoço: os desafios da boca e da garganta
Os efeitos mais comuns incluem:
- Xerostomia (boca seca): as glândulas salivares são muito sensíveis à radiação. Com menos saliva, mastigar e engolir ficam difíceis, e o risco de cáries por radiação aumenta.
- Mucosite oral: inflamação e feridas na mucosa da boca que tornam qualquer contato com alimentos doloroso.
- Disfagia: dificuldade para engolir, que pode variar de leve desconforto a impedimento para líquidos ou sólidos.
- Alterações no paladar: alimentos podem parecer metálicos, amargos ou sem gosto.
O que comer na radioterapia de cabeça e pescoço
- Preparar purês, mingaus, sopas cremosas e vitaminas enriquecidas com azeite, leite, ovos ou pasta de amendoim.
- Umedecer arroz, carnes desfiadas e legumes cozidos com caldos, molhos ou azeite antes de servir.
- Evitar alimentos secos, crocantes, ácidos ou muito temperados.
- Manter hidratação constante com pequenos goles ao longo do dia. Líquidos em temperatura ambiente ou levemente frios tendem a ser melhor tolerados do que quentes quando há mucosa comprometida.
- Em casos mais graves de disfagia, em alinhamento com o fonoaudiólogo, o nutricionista pode indicar espessantes para líquidos ou suplementos orais hipercalóricos.
Radioterapia pélvica e abdominal: intestino em alerta
Os efeitos se concentram no trato digestivo inferior: diarreia, náuseas e enterite por radiação.
- Fibras: reduzir temporariamente fibras insolúveis e optar por frutas sem casca, arroz branco e batata cozida. Reintrodução gradual conforme o intestino melhora.
- Lactose: a inflamação intestinal pode reduzir temporariamente a produção de lactase. Laticínios podem precisar ser reduzidos ou substituídos.
- Gorduras em excesso e alimentos muito condimentados tendem a piorar os sintomas intestinais.
A hidratação nessa fase é ainda mais crítica. Água, água de coco e soluções de reidratação oral ajudam a repor líquidos e eletrólitos.
Radioterapia de tórax: quando engolir dói
A esofagite pode causar sensação de queimação ou dor ao engolir. Refeições pequenas e frequentes, com alimentos de textura macia e temperatura morna, ajudam a manter a ingestão calórica. Alimentos ácidos, bebidas gaseificadas e álcool devem ser suspensos durante o período de maior inflamação.
Deficiências nutricionais comuns durante a radioterapia
Proteínas são fundamentais para a recuperação dos tecidos danificados. Vitaminas do complexo B, ferro, zinco e vitamina D também podem cair. O acompanhamento laboratorial permite identificar essas carências antes que se tornem um problema maior.
Quando o suporte nutricional especializado se torna indispensável
As diretrizes da ESPEN recomendam triagem nutricional para todos os pacientes oncológicos. Quando a ingestão oral se torna insuficiente, a nutrição enteral por sonda pode ser necessária para garantir que o tratamento continue sem interrupções.
Cada área irradiada pede uma estratégia alimentar diferente, e adaptar a dieta com orientação especializada faz diferença real durante a radioterapia. Atendo presencialmente em Brasília (Asa Norte) e online para todo o Brasil.
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Fontes
- Arends J, et al. ESPEN expert group recommendations for action against cancer-related malnutrition. Clinical Nutrition. 2022;41(4):742-764.
- Rock CL, et al. American Cancer Society nutrition and physical activity guideline for cancer survivors. CA: A Cancer Journal for Clinicians. 2022;72(3):230-262.
- Elad S, et al. MASCC/ISOO clinical practice guidelines for the management of mucositis secondary to cancer therapy. Cancer. 2020;126(19):4423-4431.
- Muscaritoli M, et al. ESPEN practical guideline: Clinical Nutrition in cancer. Clinical Nutrition. 2021;40(5):2898-2913.
Fernnanda Sá
Nutricionista clínica e oncológica · CRN-1 19981
Graduação pela UnB · Especialização pelo Hospital Israelita Albert Einstein · Residência multiprofissional em oncologia pela Secretaria de Saúde do DF · Título de especialista pela SBNO
Atendimento presencial em Brasília e online para todo o Brasil. Este conteúdo é informativo e não substitui a consulta individual.