Quem passa por quimioterapia conhece bem aquela sensação de esgotamento que não vai embora mesmo depois de uma noite inteira de sono. Esse cansaço tem nome: fadiga oncológica, ou em inglês, cancer-related fatigue (CRF). Ele é diferente do cansaço do dia a dia e merece atenção específica, inclusive na forma como nos alimentamos.
Por que a fadiga oncológica é diferente do cansaço comum?
O cansaço que sentimos depois de um dia longo desaparece com descanso. A fadiga oncológica não funciona assim. Ela persiste independentemente de quanto a pessoa dorme ou repousa, e pode ser intensa o suficiente para comprometer atividades simples do cotidiano.
As causas são múltiplas e frequentemente se sobrepõem. A anemia reduz a capacidade do sangue de transportar oxigênio para os tecidos. A desnutrição e a perda de massa muscular aumentam o esforço necessário para qualquer movimento. A inflamação sistêmica provocada tanto pelo tumor quanto pelos efeitos dos medicamentos altera o metabolismo energético do corpo.
As diretrizes do NCCN para fadiga relacionada ao câncer reconhecem que esse sintoma é um dos mais prevalentes e debilitantes entre pacientes oncológicos, afetando entre 70% e 100% dos que passam por quimioterapia ou radioterapia.
O papel da alimentação: o que ela resolve e o que não resolve
A alimentação não é capaz de eliminar a fadiga oncológica por si só. Seria irresponsável prometer isso. Mas déficits nutricionais específicos agravam de forma significativa o cansaço, e corrigi-los pode fazer diferença real na qualidade de vida durante o tratamento.
Anemia e os nutrientes envolvidos
A anemia ferropriva, por deficiência de vitamina B12 ou de folato, é uma das causas mais tratáveis de piora da fadiga. O ferro é essencial para a produção de hemoglobina. A vitamina B12 e o folato participam da formação dos glóbulos vermelhos. A evidência clínica indica que a correção da anemia em pacientes com câncer está associada à melhora da fadiga e da qualidade de vida. A avaliação laboratorial para identificar essas deficiências deve ser parte do acompanhamento nutricional durante o tratamento.
Massa muscular e percepção de esforço
A perda de massa muscular (sarcopenia) é frequente em pacientes oncológicos e amplifica a percepção de fadiga. Por isso, manter uma ingestão adequada de proteínas durante a quimioterapia tem impacto direto no nível de energia percebido.
Estratégias alimentares práticas para o dia a dia
Refeições pequenas e frequentes
Refeições volumosas consomem energia considerável no processo digestivo. Dividir a alimentação em cinco a seis refeições menores ao longo do dia ajuda a manter o aporte calórico e proteico sem sobrecarregar o sistema digestivo.
Alimentos com alta densidade energética e proteica em pequeno volume
Ovos, iogurte grego, queijos, pasta de amendoim, abacate, azeite de oliva e leguminosas como lentilha e grão-de-bico oferecem calorias e proteínas em volumes menores.
Carboidratos de qualidade para evitar picos e quedas de glicose
Preferir carboidratos com fibras (aveia, arroz integral, mandioca, batata-doce, frutas inteiras) ajuda a manter os níveis de glicose mais estáveis e contribui para uma energia mais sustentada.
Hidratação: um ponto frequentemente negligenciado
A desidratação piora a fadiga de forma significativa, mesmo em graus leves. Manter a hidratação ao longo do dia com água, água de coco, chás sem cafeína e caldos é parte essencial do cuidado nutricional.
O que não ajuda: mitos sobre energia e suplementos
O mercado oferece muitos produtos com promessa de “dar energia” durante o tratamento oncológico. A maioria não tem respaldo científico adequado e alguns podem interferir com os medicamentos quimioterápicos. A suplementação, quando indicada, precisa ser baseada em avaliação laboratorial e prescrita por profissional habilitado.
Além da alimentação: o que mais tem evidência?
Um dos recursos mais estudados para a fadiga oncológica é o exercício físico leve a moderado. Parece contraintuitivo recomendar movimento para quem está exausto, mas a literatura científica, incluindo uma meta-análise publicada no JAMA Oncology (Mustian et al., 2017), mostra que atividade física adaptada reduz a fadiga em pacientes com câncer de forma consistente. Caminhadas curtas, exercícios de força com orientação e alongamentos são exemplos que podem ser progressivamente incorporados conforme a tolerância.
O acompanhamento multidisciplinar, reunindo oncologista, nutricionista, fisioterapeuta e psicólogo quando necessário, oferece a abordagem mais completa para esse sintoma complexo.
Se você está passando por tratamento oncológico e o cansaço está comprometendo sua rotina, uma avaliação nutricional especializada pode ser um caminho importante para identificar o que está agravando esse quadro e trabalhar para minimizá-lo. Atendo presencialmente em Brasília (Asa Norte) e online para todo o Brasil.
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Fontes
- National Comprehensive Cancer Network (NCCN). Clinical Practice Guidelines in Oncology, Cancer-Related Fatigue. Version 2.2023.
- Bower JE. Cancer-related fatigue. New England Journal of Medicine. 2023;388(18):1669-1679.
- Mustian KM, et al. Comparison of pharmaceutical, psychological, and exercise treatments for cancer-related fatigue: a meta-analysis. JAMA Oncology. 2017;3(7):961-968.
- Arends J, et al. ESPEN expert group recommendations for action against cancer-related malnutrition. Clinical Nutrition. 2022;41(4):742-764.
- Rock CL, et al. American Cancer Society nutrition and physical activity guideline for cancer survivors. CA: A Cancer Journal for Clinicians. 2022;72(3):230-262.
Fernnanda Sá
Nutricionista clínica e oncológica · CRN-1 19981
Graduação pela UnB · Especialização pelo Hospital Israelita Albert Einstein · Residência multiprofissional em oncologia pela Secretaria de Saúde do DF · Título de especialista pela SBNO
Atendimento presencial em Brasília e online para todo o Brasil. Este conteúdo é informativo e não substitui a consulta individual.