Durante a quimioterapia, o corpo passa por mudanças importantes que afetam diretamente a relação com a alimentação. Uma delas é a queda na imunidade, que ocorre porque os quimioterápicos agem sobre células que se dividem rapidamente, incluindo as células do sistema imune. Nesse contexto, alguns alimentos que seriam inofensivos em outras circunstâncias passam a representar riscos reais.
Mas nem tudo que circula como “proibido” tem base científica sólida. Por isso, organizo abaixo o que realmente merece atenção e o motivo por trás de cada recomendação, para que você entenda o raciocínio e consiga tomar decisões mais seguras no dia a dia.
Alimentos crus de origem animal
Esse é o grupo com maior risco durante a quimioterapia. Quando a imunidade está reduzida, o organismo tem menos capacidade de combater bactérias que normalmente seriam eliminadas sem maiores consequências.
Devem ser evitados durante o tratamento:
- Sushi, sashimi e frutos do mar crus: risco de contaminação por bactérias como Listeria, Salmonella e Vibrio.
- Carpaccio e carnes mal passadas: mesmo cortes nobres podem conter patógenos quando não submetidos ao calor suficiente.
- Ovos crus ou mal cozidos: presentes em maioneses caseiras, mousses, gemada e alguns molhos. O risco de Salmonella é real.
- Queijos moles de leite cru: brie, camembert, gorgonzola e outros queijos frescos artesanais feitos com leite não pasteurizado podem conter Listeria, uma bactéria perigosa especialmente para imunossuprimidos.
A regra geral é simples: durante a quimioterapia, tudo de origem animal precisa ser bem cozido. O calor elimina os principais agentes infecciosos.
Toranja, pomelo e laranja azeda
Esse é um dos alertas menos conhecidos e um dos mais importantes. A toranja (grapefruit), o pomelo e a laranja azeda (também chamada de laranja de Sevilha) contêm compostos chamados furanocumarinas, especialmente a bergamotina e a dihidrobergamotina, que inibem uma enzima do fígado chamada CYP3A4.
Essa enzima é responsável pelo metabolismo de muitos medicamentos, incluindo vários quimioterápicos. Quando ela é bloqueada por essas frutas, o remédio pode não ser metabolizado na velocidade esperada, o que resulta em concentrações mais altas do medicamento no sangue do que o pretendido. Dependendo do quimioterápico, isso pode aumentar significativamente a toxicidade do tratamento.
O efeito pode durar até 72 horas após o consumo. Por isso, a orientação é evitar completamente a toranja, o pomelo e a laranja azeda durante todo o período de quimioterapia, não apenas no dia da infusão. Laranjas comuns, como a pera, a lima e a da Bahia, não têm esse efeito e podem ser consumidas normalmente.
Álcool
O álcool aumenta a carga de trabalho do fígado, que já está sendo sobrecarregado pelo processamento dos quimioterápicos. Muitos desses medicamentos são hepatotóxicos, ou seja, já carregam um potencial de agressão ao fígado. Associar álcool a esse cenário aumenta o risco de toxicidade hepática.
Além disso, o álcool compromete o sistema imune, piora a hidratação e pode interagir com antiéméticos e outros medicamentos de suporte usados durante o tratamento. A recomendação é evitá-lo durante a quimioterapia.
Suplementos sem orientação médica ou nutricional
Vitaminas, minerais e outros suplementos parecem inofensivos, mas podem causar interações sérias durante o tratamento oncológico. Doses elevadas de antioxidantes como vitamina C, vitamina E e selênio são um exemplo: alguns quimioterápicos funcionam justamente induzindo estresse oxidativo nas células tumorais. Suplementar antioxidantes em alta dose durante o tratamento pode, teoricamente, reduzir a eficácia do medicamento.
Isso não significa que suplementação seja sempre errada durante a quimioterapia. Alguns pacientes precisam de suplementação por deficiências identificadas. O problema é usar suplementos por conta própria, sem avaliação da equipe. Sempre informe seu oncologista e nutricionista sobre tudo que está tomando.
Chás e fitoterápicos sem aval da equipe
Chás medicinais e fitoterápicos são frequentemente vistos como naturais e, por isso, seguros. Mas muitas plantas têm compostos ativos que interagem com quimioterápicos. A erva-de-são-joão (Hypericum perforatum), por exemplo, ativa enzimas hepáticas e pode acelerar o metabolismo de vários medicamentos, reduzindo sua eficácia. Outros chás podem ter efeito anticoagulante, hepatotóxico ou imunomodulador relevante durante o tratamento.
A recomendação é clara: não use chás medicinais ou fitoterápicos durante a quimioterapia sem discussão prévia com a equipe de saúde.
Brotos e germinados crus
Brotos de feijão, alfafa, brócolis e outros germinados são alimentos nutritivos, mas o processo de germinação cria um ambiente úmido e aquecido que favorece o crescimento de bactérias como Salmonella e E. coli. Para pessoas com imunidade reduzida, o risco de infecção alimentar grave a partir desses alimentos é maior do que em pessoas saudáveis. Durante a quimioterapia, prefira consumir esses alimentos cozidos.
O que você pode comer
As restrições acima existem por razões específicas. Elas não significam que a alimentação durante a quimioterapia precisa ser monótona ou sem prazer. Frutas e vegetais bem higienizados, carnes e ovos bem cozidos, laticínios pasteurizados, grãos, leguminosas e alimentos preparados com higiene adequada são completamente seguros e devem compor uma alimentação variada e nutritiva.
A nutrição durante o tratamento oncológico serve para manter o estado nutricional, preservar a massa muscular, minimizar os efeitos colaterais e apoiar a tolerância ao tratamento. Uma nutricionista especializada em oncologia pode ajudar a adaptar a alimentação à sua realidade, considerando os efeitos colaterais específicos do seu protocolo de quimioterapia.
Saber o que evitar durante a quimioterapia protege sua saúde e ajuda o tratamento a funcionar melhor. Atendo presencialmente em Brasília (Asa Norte) e online para todo o Brasil.
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Fontes
- Bower M, et al. Neutropenic sepsis. Clinical Medicine. 2019.
- Bailey DG, et al. Grapefruit–medication interactions: Forbidden fruit or avoidable consequences? Canadian Medical Association Journal. 2013.
- Pirmohamed M. Drug–grapefruit juice interactions. BMJ. 2013.
- Sarkaria JN, et al. Pharmacokinetic drug interactions with the CYP3A4 enzyme system. Clinical Cancer Research. 2002.
- Mathijssen RH, et al. Effects of St. John’s wort on irinotecan metabolism. Journal of the National Cancer Institute. 2002.
- Block KI, et al. Impact of antioxidant supplementation on chemotherapeutic toxicity. Integrative Cancer Therapies. 2008.
- Centers for Disease Control and Prevention (CDC). Food Safety for People with Cancer. CDC. 2019.
Fernnanda Sá
Nutricionista clínica e oncológica · CRN-1 19981
Graduação pela UnB · Especialização pelo Hospital Israelita Albert Einstein · Residência multiprofissional em oncologia pela Secretaria de Saúde do DF · Título de especialista pela SBNO
Atendimento presencial em Brasília e online para todo o Brasil. Este conteúdo é informativo e não substitui a consulta individual.