O câncer colorretal tem uma particularidade que o torna especialmente desafiador do ponto de vista nutricional: o órgão em tratamento é exatamente o mesmo responsável por absorver boa parte dos nutrientes que você precisa para atravessar essa fase. Isso significa que a alimentação precisa de atenção redobrada e de adaptações específicas.
Aqui você vai entender como cirurgia, quimioterapia e radioterapia pélvica afetam o intestino de formas diferentes e o que fazer em cada situação.
Como o tratamento impacta o intestino
- Cirurgia: dependendo do trecho removido, pode alterar o trânsito intestinal, reduzir a capacidade absortiva e, em alguns casos, levar à criação de uma ostomia.
- Quimioterapia: os esquemas mais comuns para câncer colorretal, como FOLFOX e FOLFIRI, podem causar diarreia, mucosite no trato digestivo e alteração da microbiota intestinal.
- Radioterapia pélvica: afeta especialmente o reto e o intestino delgado próximo à pelve, podendo causar proctite actínica, diarreia e, em longo prazo, alterações na absorção de gordura e vitamina B12.
Diarreia x constipação: estratégias opostas
Quando há diarreia
A prioridade é reduzir o volume e a velocidade do trânsito intestinal. Alimentos com muito açúcar ou gordura, fibras insolúveis em excesso, leite integral em grande quantidade e alimentos com efeito laxativo natural devem ser reduzidos ou evitados temporariamente. Hidratação cuidadosa é indispensável.
Quando há constipação
A abordagem é oposta: aumentar o consumo de fibras de forma gradual, priorizar legumes, verduras, frutas com casca (quando toleradas) e hidratação adequada. Alguns opioides usados para controle da dor causam constipação intensa, o que pode exigir ajuste medicamentoso além de modificações alimentares.
O papel das fibras: mais complexo do que parece
Fibras solúveis (aveia, maçã sem casca, banana, cenoura cozida) tendem a ser melhor toleradas em quase todos os cenários. Fibras insolúveis em grandes quantidades (farelo de trigo, grãos integrais duros, vegetais crus em excesso) podem irritar um intestino já inflamado pelo tratamento.
Carnes processadas, carne vermelha e o contexto da prevenção
O IARC classifica carnes processadas como carcinogênicas ao ser humano e carne vermelha como provavelmente carcinogênica, com o câncer colorretal como a associação mais documentada. Durante o tratamento, o foco muda: a prioridade é garantir ingestão adequada de calorias e proteínas. A escolha das fontes proteicas deve ser individualizada e considerar tanto o estado nutricional quanto a tolerância digestiva.
Cálcio e vitamina D no câncer colorretal
O relatório do WCRF aponta que alimentos com cálcio e a vitamina D têm evidência de proteção. Laticínios com baixo teor de gordura, sardinha e salmão são boas fontes quando tolerados.
Orientações específicas para pacientes com ostomia
- Controle de gases: feijão, brócolis, couve, repolho e refrigerantes tendem a aumentar a produção de gases. A observação individual é a melhor guia.
- Controle de odor: carnes vermelhas, ovos e cebola crua podem intensificar o odor. Iogurte e suco de cranberry são citados por alguns pacientes como redutores de odor.
- Consistência das fezes: para colostomias, fezes de consistência pastosa. Para ileostomias, atenção maior à hidratação.
- Mastigação adequada: alimentos mal mastigados podem bloquear o estoma. Mastigar bem e evitar alimentos muito fibrosos e secos é uma precaução importante.
Contar com acompanhamento de um estomaterapeuta, além do nutricionista, faz diferença nessa adaptação.
Hidratação durante o tratamento
Independentemente do perfil do trânsito intestinal, a hidratação adequada é indispensável. Água, água de coco e caldos leves são boas bases. Bebidas com cafeína e álcool devem ser evitadas ou minimizadas.
O intestino precisa de cuidado especializado durante o tratamento do câncer colorretal, e a nutrição faz parte disso. Atendo presencialmente em Brasília (Asa Norte) e online para todo o Brasil.
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Fontes
- World Cancer Research Fund / American Institute for Cancer Research. Diet, Nutrition, Physical Activity and Cancer: a Global Perspective. Third Expert Report. 2018.
- Clinton SK, et al. The WCRF/AICR Third Expert Report on Diet, Nutrition, Physical Activity, and Cancer: impact and future directions. Journal of Nutrition. 2020;150(4):663-671.
- Arends J, et al. ESPEN expert group recommendations for action against cancer-related malnutrition. Clinical Nutrition. 2022;41(4):742-764.
- Rock CL, et al. American Cancer Society nutrition and physical activity guideline for cancer survivors. CA: A Cancer Journal for Clinicians. 2022;72(3):230-262.
Fernnanda Sá
Nutricionista clínica e oncológica · CRN-1 19981
Graduação pela UnB · Especialização pelo Hospital Israelita Albert Einstein · Residência multiprofissional em oncologia pela Secretaria de Saúde do DF · Título de especialista pela SBNO
Atendimento presencial em Brasília e online para todo o Brasil. Este conteúdo é informativo e não substitui a consulta individual.