Poucas dúvidas geram tanta ansiedade em pacientes com câncer de mama quanto essa. É comum que a mulher receba o diagnóstico, ouça falar que a soja “imita o estrogênio” e decida cortar completamente o tofu, o leite de soja e o edamame da alimentação, com medo de estar alimentando o tumor. Essa preocupação é compreensível, mas a ciência atual conta uma história diferente.
Por que surgiu o medo da soja no câncer de mama
A soja contém compostos chamados isoflavonas, em especial a genisteína e a daidzeína. Essas substâncias são classificadas como fitoestrógenos, ou seja, compostos de origem vegetal com estrutura química semelhante ao estrogênio humano.
O raciocínio que gerou o alerta foi simples: se os cânceres de mama hormônio-dependentes (receptores de estrogênio positivos, conhecidos como RE+) crescem estimulados pelo estrogênio, então substâncias que “imitam” o estrogênio poderiam piorar a doença.
O problema é que essa lógica, embora pareça intuitiva, não se sustenta quando testada em seres humanos.
Isoflavonas não são estrogênio humano
O estrogênio humano mais potente é o estradiol, que se liga principalmente aos receptores de estrogênio alfa (ERα), encontrados em alta concentração no tecido mamário e com efeito proliferativo conhecido.
As isoflavonas da soja têm afinidade muito maior pelos receptores de estrogênio beta (ERβ), que atuam de forma diferente no organismo, com efeitos que podem inclusive ser opostos aos do estradiol em alguns tecidos. Além disso, as isoflavonas têm uma atividade estrogênica muito mais fraca do que o estrogênio humano, e em alguns contextos chegam a competir com o estradiol pelos receptores, reduzindo seu efeito.
Esse mecanismo ajuda a explicar por que os estudos com seres humanos não confirmaram o alarme levantado pelos primeiros experimentos em laboratório, que usavam células tumorais isoladas ou ratos com metabolismo hormonal muito diferente do humano.
O que os estudos populacionais mostram
Algumas das evidências mais importantes sobre soja e câncer de mama vêm de estudos com populações asiáticas, especialmente japonesas e chinesas, que historicamente consomem quantidades muito maiores de soja do que populações ocidentais.
Se a soja realmente aumentasse o risco de câncer de mama hormônio-dependente, seria esperado que países com alto consumo de soja apresentassem taxas mais altas da doença. O que os estudos mostram é o contrário: mulheres asiáticas com alto consumo de soja ao longo da vida têm taxas menores de câncer de mama em comparação a populações ocidentais com baixo consumo.
Estudos de sobrevivência, como o Shanghai Breast Cancer Survival Study, publicado no Journal of the American Medical Association, acompanharam mulheres diagnosticadas com câncer de mama e observaram que aquelas com maior consumo de soja após o diagnóstico tiveram menor taxa de recorrência e menor mortalidade, inclusive entre mulheres com tumores RE+.
O posicionamento do AICR em 2022
Em 2022, o American Institute for Cancer Research (AICR) publicou uma atualização clara sobre o tema: o consumo moderado de alimentos de soja é considerado seguro para sobreviventes de câncer de mama, incluindo aquelas com tumores hormônio-dependentes.
Esse posicionamento é compartilhado por organizações como a American Cancer Society e a Academy of Nutrition and Dietetics. A recomendação é baseada na avaliação das evidências disponíveis em humanos, não em modelos de laboratório.
Alimento de soja versus suplemento de isoflavonas: uma distinção fundamental
Existe uma diferença importante que muitas pessoas desconhecem:
- Alimentos de soja integrais, como tofu, edamame, leite de soja e tempeh, fornecem isoflavonas em concentrações moderadas, junto com proteínas, fibras e outros nutrientes. O consumo moderado desses alimentos é considerado seguro pelas principais organizações de oncologia nutricional.
- Suplementos de isoflavonas em alta dose, como cápsulas concentradas de isoflavonas, são uma situação completamente diferente. Esses produtos fornecem quantidades muito maiores de isoflavonas isoladas do que qualquer alimentação habitual proporcionaria, e não há evidências suficientes sobre sua segurança em pacientes com câncer de mama.
A distinção é clara: comer tofu algumas vezes por semana não é o mesmo que tomar suplemento de isoflavonas em alta dose. A primeira situação tem suporte científico de segurança. A segunda precisa ser discutida individualmente com a equipe de saúde antes de qualquer uso.
O que isso significa para a sua alimentação
Se você tem câncer de mama e evita a soja com medo de piorar a doença, saiba que as evidências atuais não sustentam essa restrição para alimentos de soja em consumo moderado. Pelo contrário, a soja é uma excelente fonte de proteína vegetal, com boa qualidade nutricional, o que pode ser especialmente útil durante o tratamento.
Isso não significa que você deve comer soja em grande quantidade todos os dias sem qualquer orientação. Cada caso tem suas particularidades, e a decisão deve ser feita com a sua equipe de saúde, considerando o tipo de tumor, o tratamento em curso e o seu histórico clínico.
O que não faz sentido é cortar a soja do cardápio com base em um medo que a ciência já avaliou e, em boa medida, descartou para os alimentos in natura.
Soja em consumo moderado não é vilã no câncer de mama, mas cada caso merece uma avaliação individualizada. Atendo presencialmente em Brasília (Asa Norte) e online para todo o Brasil.
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Fontes
- Shu XO, et al. Soy food intake and breast cancer survival. Journal of the American Medical Association (JAMA). 2009. (Shanghai Breast Cancer Survival Study)
- American Institute for Cancer Research (AICR). Soy and Cancer Risk: Our Expert’s Perspective. Atualizado em 2022.
- Rock CL, et al. American Cancer Society nutrition and physical activity guideline for cancer survivors. CA: A Cancer Journal for Clinicians. 2022.
- Messina M. Soy and Health Update: Evaluation of the Clinical and Epidemiologic Literature. Nutrients. 2016.
- Boucher BA, et al. Soy food and isoflavone intake and risk of breast cancer recurrence. Breast Cancer Research and Treatment. 2013.
- Academy of Nutrition and Dietetics. Position of the Academy of Nutrition and Dietetics: Dietary Fatty Acids for Healthy Adults. Journal of the Academy of Nutrition and Dietetics. 2014.
Fontes
- Shu XO, et al. Soy food intake and breast cancer survival. Journal of the American Medical Association (JAMA). 2009. (Shanghai Breast Cancer Survival Study)
- American Institute for Cancer Research (AICR). Soy and Cancer Risk: Our Expert’s Perspective. Atualizado em 2022.
- Rock CL, et al. American Cancer Society nutrition and physical activity guideline for cancer survivors. CA: A Cancer Journal for Clinicians. 2022.
- Messina M. Soy and Health Update: Evaluation of the Clinical and Epidemiologic Literature. Nutrients. 2016.
- Boucher BA, et al. Soy food and isoflavone intake and risk of breast cancer recurrence. Breast Cancer Research and Treatment. 2013.
- Academy of Nutrition and Dietetics. Position of the Academy of Nutrition and Dietetics: Dietary Fatty Acids for Healthy Adults. Journal of the Academy of Nutrition and Dietetics. 2014.
Fernnanda Sá
Nutricionista clínica e oncológica · CRN-1 19981
Graduação pela UnB · Especialização pelo Hospital Israelita Albert Einstein · Residência multiprofissional em oncologia pela Secretaria de Saúde do DF · Título de especialista pela SBNO
Atendimento presencial em Brasília e online para todo o Brasil. Este conteúdo é informativo e não substitui a consulta individual.